Capitais - Vitoria

O Arquipélago Urbano Entre o Porto e as Pedras

Vitória, a belíssima e compacta capital do estado do Espírito Santo, é uma cidade que frequentemente surpreende os viajantes que exploram a costa da região Sudeste. Oficialmente uma das três capitais brasileiras localizadas em ilhas, Vitória é, na verdade, um arquipélago formado por 34 ilhas e pequenas porções de terra conectadas por pontes e aterros que, ao longo dos séculos, transformaram o mapa original da região.

Espremida entre o Oceano Atlântico e formações rochosas imponentes, a cidade possui um relevo extremamente acidentado, repleto de baías, manguezais preservados e montanhas de granito que surgem abruptamente no meio dos bairros urbanos.

Com pouco mais de 360 mil habitantes, a capital capixaba ostenta um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, taxas elevadas de longevidade e um planejamento urbano focado em parques ecológicos e largas avenidas litorâneas.

É uma cidade que soube alinhar a força de um dos maiores e mais antigos complexos portuários e industriais do Brasil com uma altíssima qualidade de vida, sendo um polo exportador de minério de ferro e commodities que, no entanto, mantém a calmaria e as tradições seculares de uma pacata colônia pesqueira.

História: Combates Coloniais, Corsários e o Crescimento Portuário

A história de Vitória começou de forma conturbada e estratégica. A primeira vila fundada na região pelos donatários portugueses, em 1535, ficava no continente (na atual cidade de Vila Velha). No entanto, devido aos constantes, brutais e organizados ataques das tribos indígenas locais (os Goitacazes) e às ameaças de piratas e corsários franceses e holandeses, a administração colonial decidiu transferir a sede da capitania em 1551 para uma ilha montanhosa logo em frente, por ser muito mais segura e fácil de defender.

A nova povoação ganhou o nome de “Vila Nova do Espírito Santo”, e a lenda diz que a nomenclatura atual de Vitória foi dada logo após uma imensa batalha em que os portugueses finalmente derrotaram os indígenas que os cercavam.

Durante os seus três primeiros séculos, a ilha de Vitória viveu estagnada e ilhada não apenas pela água, mas pelo monopólio imposto por Minas Gerais, que proibia a abertura de estradas que ligassem o litoral capixaba ao interior mineiro, para evitar o contrabando de ouro e diamantes.

A explosão de desenvolvimento só aconteceu no final do século XIX, quando o cultivo de café tomou conta do interior do Espírito Santo. O porto da capital foi ampliado, ferrovias foram construídas rasgando as montanhas, e imigrantes europeus chegaram em massa, dando início à era industrial e de exportação marítima que define a economia do estado até hoje.

Arquitetura, Pontes e o Mirante Sagrado do Convento

O coração antigo de Vitória preserva palácios governamentais majestosos, como o Palácio Anchieta, cuja construção foi iniciada no século XVI pelos padres jesuítas e que, por séculos, funcionou como igreja e colégio, contendo inclusive a tumba do Padre José de Anchieta. Uma curiosidade arquitetônica da capital é que o seu maior e mais icônico monumento não fica, tecnicamente, em Vitória.

Trata-se do Convento da Penha, localizado na cidade vizinha de Vila Velha, mas que compõe o principal cenário de fundo da capital. Erguido milagrosamente no topo de um imenso penhasco de granito de 154 metros de altura rodeado por mata atlântica virgem, o convento, fundado em 1558, oferece a visão panorâmica mais espetacular da baía de Vitória e de toda a frota de navios cargueiros que cruzam as águas diariamente.

O marco da engenharia urbana moderna capixaba é a Terceira Ponte. Inaugurada em 1989 e com mais de 3 quilômetros de extensão, ela é o eixo vital de locomoção, conectando Vitória a Vila Velha. Sua imensa estrutura suspensa, com vãos livres imensos para permitir a passagem de gigantescos navios petroleiros, é um dos trajetos rodoviários mais belos do Brasil.

Abaixo dela e ao redor das praias modernas (como Camburi e Curva da Jurema), Vitória exibe bairros como a Enseada do Suá, construídos integralmente sobre aterros ganhos do mar, repletos de centros comerciais de alto luxo, marinas e shoppings.

Cultura: A Arte Imaterial das Paneleiras de Goiabeiras

O bem cultural mais precioso e antigo do Espírito Santo é feito de barro, suor e tradição indígena. Trata-se da produção artesanal de panelas de barro no bairro de Goiabeiras, periferia de Vitória. O ofício das Paneleiras de Goiabeiras foi o primeiro bem imaterial tombado no Brasil pelo IPHAN.

O processo para a confecção dessas panelas (itens obrigatórios e insubstituíveis para o preparo da verdadeira gastronomia local) é exaustivo e transmitido há mais de 400 anos pelas mulheres da região, mesclando técnicas tupis, africanas e portuguesas.

O barro preto e argiloso é retirado do vizinho Vale do Mulembá e amassado com os pés nuas. As panelas não são modeladas em tornos; elas são moldadas exclusivamente e vagarosamente com as mãos. Após a secagem e queima na fogueira a céu aberto, as panelas ainda quentes são “açoitadas” (pintadas e impermeabilizadas) com vassourinhas embebidas no tanino, a tinta natural e escura extraída da casca de árvores do manguezal.

O resultado final é uma panela rústica, preta, extremamente resistente ao fogo alto e que detém o dom de realçar o sabor dos pescados.

Gastronomia: A Batalha das Moquecas e a Torta Capixaba

Saber a diferença entre a moqueca baiana e a moqueca capixaba é uma questão de honra para o estado e o principal orgulho do povo de Vitória, sintetizado no ditado local: “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”. A Moqueca Capixaba é radicalmente diferente de suas primas nordestinas em seus ingredientes e leveza.

Feita estritamente nas panelas de barro de Goiabeiras (que mantêm o calor por longo tempo), a receita do Espírito Santo não leva, sob nenhuma hipótese, leite de coco e muito menos azeite de dendê. Ela busca valorizar exclusivamente o sabor puro e tenro do peixe branco fresco, refogado e estufado em uma cama rica de tomates, cebolas, muito coentro e bastante alho amassado.

A cor avermelhada vibrante do caldo é garantida pelo Urucum (ou colorau). Acompanhada de arroz branco e de um suculento pirão feito com a cabeça do peixe e farinha de mandioca, ela é a prova do frescor dos insumos marítimos da região.

Outro prato colossal e histórico é a Torta Capixaba, uma receita tradicional da Semana Santa elaborada com palmito fresco assado junto com um refogado riquíssimo de desfiados de siri, caranguejo, camarão, ostra e sururu, batida com ovos e servida em postas assadas.

Conclusão

Vitória é uma capital eficiente e de encantos pacatos. Sem o caos das megacidades vizinhas como Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, ela oferece um refúgio ordenado e seguro. O turismo em Vitória não exige pressa; ele convida para caminhadas tranquilas no calçadão iluminado de Camburi à noite, para a contemplação das lanchas cruzando os pilares da Terceira Ponte e para longos almoços regados a peixe fresco servido fervendo na panela negra de barro ancestral.

É a união harmoniosa da indústria pesada no horizonte portuário com a natureza intocada nos picos montanhosos.