
As Avenidas Largas e a Terra Vermelha
Campo Grande, a capital do estado de Mato Grosso do Sul, é uma cidade marcada por espaços amplos. Conhecida como a “Cidade Morena” devido à cor avermelhada e fértil do seu solo, a metrópole de pouco mais de 900 mil habitantes possui ruas e avenidas incrivelmente largas, fartamente arborizadas por árvores nativas do Cerrado, como os imponentes Ipês, que florescem de forma espetacular nos meses de seca.
Localizada estrategicamente no centro do estado, a capital funciona como o grande polo de apoio, logística e entrada para turistas do mundo inteiro que buscam explorar os dois principais santuários ecológicos da região: as águas cristalinas de Bonito e o bioma do Pantanal Sul-Mato-Grossense.
Contudo, Campo Grande retém o viajante com sua própria identidade, forjada por uma miscigenação populacional única que engloba povos indígenas locais, gaúchos, paraguaios, sírio-libaneses e a gigantesca comunidade japonesa.
História: Do Povoado de José Antônio Pereira aos Trilhos da Noroeste
O nascimento de Campo Grande é uma história de migração interna. Diferente de cidades criadas por decretos imperiais, ela foi fundada organicamente em 1872 pelo fazendeiro mineiro José Antônio Pereira. Em busca de terras devolutas e pastagens de qualidade, ele viajou meses em carros de boi e se instalou na confluência de dois córregos, o Prosa e o Segredo, onde construiu sua fazenda e a primeira igreja de pau a pique do povoado.
A pacata vila rural sofreu uma transformação radical nas primeiras décadas do século XX. O grande divisor de águas foi a chegada, em 1914, dos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que ligava Bauru (SP) a Corumbá (fronteira com a Bolívia). A ferrovia trouxe o progresso comercial imediato, o asfalto, a eletricidade e transformou a cidade no maior entroncamento comercial da região, superando em importância econômica a antiga capital unificada, Cuiabá.
Esse peso político e logístico foi o fator determinante para que, em 1977, quando o governo federal dividiu o gigantesco estado de Mato Grosso em dois, Campo Grande fosse coroada como a capital do novo estado de Mato Grosso do Sul.
Urbanismo e Lazer: O Parque das Nações Indígenas e o Bioparque
A vida ao ar livre é um pilar da rotina do campo-grandense. O Parque das Nações Indígenas, localizado nos altos da Avenida Afonso Pena, é um dos maiores parques urbanos do mundo, com 119 hectares. O espaço possui grandes lagos para canoagem, pistas de caminhada, monumentos às tribos originárias e é habitado de forma livre por dezenas de capivaras, tatus e quatis, que dividem o gramado com os moradores nos finais de tarde. Dentro do complexo do parque, encontram-se o Museu de Arte Contemporânea (MARCO) e o Museu das Culturas Dom Bosco.
O mais recente e grandioso marco arquitetônico e científico da cidade é o Bioparque Pantanal. Inaugurado em 2022 com um projeto de arquitetura arrojada de Ruy Ohtake, é o maior aquário de água doce do mundo. Seus imensos tanques recriam fidedignamente ecossistemas continentais e abrigam milhares de peixes, jacarés e sucuris nativas da Bacia do Paraguai e do Pantanal, servindo tanto como atração turística quanto como centro de pesquisa genética de fauna pantaneira.
Cultura: A Fusão de Povos e a Herança Indígena
Campo Grande abriga a segunda maior população indígena em contexto urbano do Brasil, com aldeias demarcadas (como a Aldeia Urbana Marçal de Souza) dentro dos limites da cidade. Etnias como os Terena e os Kadiwéu (conhecidos no passado como os índios cavaleiros) influenciam ativamente a cultura local, com cerâmicas rústicas e festividades próprias sendo comercializadas na Praça dos Imigrantes.
Outra força cultural gigantesca é a imigração asiática. A construção da ferrovia no início do século XX atraiu centenas de famílias vindas de Okinawa, ilha ao sul do Japão. Hoje, estima-se que a comunidade okinawana de Campo Grande seja a maior do Brasil. Eles moldaram a agricultura, o comércio local e fundaram clubes esportivos e associações que mantêm vivos idiomas, danças (como o Taiko) e a culinária que se fundiu com a da cidade.
Gastronomia: O Patrimônio do Sobá, o Tereré e a Chipa
A gastronomia da capital sul-mato-grossense é talvez a prova mais deliciosa dessa miscigenação. A culinária oriental sofreu adaptações e gerou o prato mais famoso da cidade: o Sobá de Campo Grande.
Registrado como Bem Cultural de Natureza Imaterial pelo IPHAN, o prato servido intensamente na histórica Feira Central (conhecida como Feirona) é um caldo denso e fumegante feito com ossos bovinos, macarrão de trigo, tiras de carne suína ou bovina assada, cebolinha verde fresca e omelete finamente fatiada. Um prato quente e reconfortante consumido o ano todo.
A proximidade com a fronteira paraguaia inseriu no dia a dia a Chipa, um tipo de pão de queijo em formato de ferradura com consistência mais firme e salgada, vendido em todas as padarias e nos semáforos. Para enfrentar o calor seco, o campo-grandense adotou o hábito sagrado do Tereré.
Trata-se da erva-mate servida na guampa (chifre de boi) e bebida em rodas de amigos, mas, diferente do chimarrão gaúcho, o tereré é feito com água estupidamente gelada, muitas vezes misturada com limão ou hortelã, funcionando como um hidratante social refrescante. Na carne, pratos como a Linguiça de Maracaju e as churrascarias de cortes grossos mostram a força pecuária do estado.
Conclusão
Campo Grande é uma capital horizontal, onde o céu parece maior devido à ausência de grandes blocos de arranha-céus na maior parte da cidade. Ela recebe o viajante de forma despretensiosa, oferecendo infraestrutura moderna sem sufocar as raízes rurais e indígenas.
O passeio entre as feiras orientais e os aquários de peixes pantaneiros comprova a riqueza de um povo que construiu o seu progresso literalmente em cima dos trilhos de trem.
