Pacaembu

O Charme Clássico da Praça Charles Miller

Diferente do Morumbis, de Itaquera ou do Allianz Parque, o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, consagrado eternamente como Pacaembu, não pertence e nunca pertenceu exclusivamente a um único clube.

Localizado em um vale majestoso no bairro nobre do Pacaembu, com a sua faixada monumental voltada para a imensa Praça Charles Miller, o estádio é um patrimônio histórico, arquitetônico e afetivo de toda a cidade de São Paulo e de todos os torcedores paulistas, independentemente da cor da camisa.

Inaugurado em 1940, o Pacaembu foi, durante décadas, o coração pulsante do futebol no estado. Era o campo neutro perfeito para as grandes finais, a “casa de aluguel” predileta do Corinthians por décadas antes da construção de Itaquera, e o palco onde o Santos de Pelé escolhia jogar na capital para atrair públicos estratosféricos.

Atualmente, o complexo passa por um controverso, bilionário e imenso processo de concessão privada e reforma estrutural para se transformar na “Mercado Livre Arena Pacaembu”, perdendo o antigo “Tobogã”, mas prometendo modernizar o espaço sem destruir sua herança visual externa.

História: A Inauguração Getulista e a Obra de Arte do Concreto

A construção do Pacaembu foi iniciada em 1938 e finalizada em 1940, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. A inauguração foi um megaevento cívico-militar planejado milimetricamente para demonstrar a força e a modernidade do Brasil na época. Com mais de 50 mil pessoas presentes, o evento contou com o próprio presidente Vargas discursando, desfiles de atletas e apresentações de corais.

O design do estádio é uma obra-prima da arquitetura Art Déco. Sua fachada frontal exibe colunas e arcos imponentes com vitrais e portões de ferro batido que lhe conferem o aspecto de um monumento europeu da década de 1930. Em 1950, o Pacaembu foi uma das sedes oficiais da Copa do Mundo realizada no Brasil, recebendo partidas importantes da fase de grupos.

Sob as arquibancadas originais fica o Museu do Futebol, uma das atrações turísticas mais bem montadas e interativas de São Paulo, que preserva de forma tecnológica toda a evolução da bola no país.

A Casa do Corinthians e o Palco de Finais Históricas

Embora fosse um estádio municipal, o Pacaembu virou, na prática, a “casa” do Corinthians por muito tempo. Como o clube não possuía um estádio para jogos grandes, a torcida alvinegra adotou a Praça Charles Miller como o seu quintal. A consagração absoluta dessa relação de amor ocorreu na noite de 4 de julho de 2012.

Com o Pacaembu entupido de corintianos e tomado por um clima de êxtase histórico, o Corinthians derrotou o Boca Juniors da Argentina por 2 a 0, com dois gols do atacante Emerson Sheik, e conquistou de forma invicta a sua inédita e aguardada Copa Libertadores da América. O som do hino cantado à capela pela torcida naquela noite está gravado na história do estádio.

Mas o Pacaembu também sorriu para o Litoral. O Santos Futebol Clube fez do estádio o seu principal alçapão na capital. Nos anos 1960, Pelé desfilou genialidade no gramado do Pacaembu incontáveis vezes, destruindo zagas adversárias nos campeonatos paulistas e torneios Rio-São Paulo.

Mais recentemente, em 2011, o Santos liderado por um jovem genial chamado Neymar Jr. venceu o Peñarol do Uruguai por 2 a 1 na final da Libertadores dentro do Pacaembu, garantindo o tricampeonato continental do Peixe.

O São Paulo e o Palmeiras também realizaram clássicos inesquecíveis, decisões de campeonatos estaduais e torneios Rio-São Paulo no tradicional gramado das perdizes, comprovando a neutralidade sagrada do local.

A Demolição do Tobogã e a Nova Era

Originalmente, a arquibancada do fundo do estádio possuía uma abertura em forma de concha acústica onde ficava uma praça esportiva, mas em 1970 ela foi fechada com a construção de uma enorme arquibancada reta de concreto apelidada de “Tobogã”, que aumentou a capacidade para quase 40 mil pessoas.

Em 2019, o consórcio Allegra Pacaembu assumiu a concessão do complexo pelos próximos 35 anos. A reforma atual envolveu a polêmica demolição completa do Tobogã para a construção de um complexo de eventos moderno, um hotel de luxo, centro de convenções e lojas subterrâneas, renomeando o espaço para Mercado Livre Arena.

A ideia é transformar o antigo estádio municipal (que vinha dando imensos prejuízos anuais aos cofres públicos por falta de uso após a inauguração das arenas privadas de Palmeiras e Corinthians) em um hub de entretenimento contínuo, preservando a fachada tombada pelo patrimônio histórico.

Conclusão

O Pacaembu é o charme romântico do futebol em São Paulo. Ele é uma cápsula do tempo arquitetônica cravada em um dos bairros mais caros da cidade. Mesmo com as mudanças modernizadoras em andamento, a sua fachada intacta e o seu Museu do Futebol continuarão a lembrar os visitantes de uma época em que as torcidas rivais se encontravam na Praça Charles Miller para assistir a um clássico no domingo à tarde, comendo pernil na porta do estádio.

É o berço de memórias que nenhum naming rights será capaz de apagar.