Capitais - Palmas

O Planejamento Monumental do Século XX

Palmas, a escaldante capital do estado do Tocantins, ostenta o título de ser a cidade mais nova e a última capital planejada a ser erguida do zero em todo o território brasileiro. Fundada em 1989, ela é uma cidade moderna que possui traços conceituais muito semelhantes aos de Brasília, como as superquadras, avenidas monumentais incrivelmente largas, rotatórias gigantescas vazadas por jardins e uma divisão urbana cartesiana.

Com pouco mais de 300 mil habitantes, Palmas ainda possui uma baixa densidade demográfica, o que resulta em extensos vazios urbanos entre as quadras comerciais e habitacionais.

Situada na região Norte, bem no centro geográfico do estado, a cidade convive com temperaturas severamente elevadas durante quase todo o ano. Mas esse calor opressivo foi mitigado, tanto no planejamento da cidade quanto no seu desenvolvimento posterior, pela construção da gigantesca Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães no Rio Tocantins.

O represamento do rio criou um lago artificial formidável que banha toda a margem oeste da cidade, proporcionando aos palmenses extensas praias de água doce, marinas e um microclima um pouco mais suportável. Além de ser o centro administrativo local, Palmas é a porta de entrada obrigatória para as expedições que partem rumo às belezas brutas do Parque Estadual do Jalapão.

História: A Criação do Tocantins e a Pedra Fundamental na Serra

A criação de Palmas foi uma consequência direta do redesenho do mapa político do Brasil pela Constituição Federal de 1988. Atendendo a um desejo separatista secular da região norte do então estado de Goiás (que era gigantesco e sofria com o abandono administrativo do sul), o artigo 13 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias criou oficialmente o estado do Tocantins.

A primeira capital provisória instalou-se na cidade vizinha de Miracema, mas o primeiro governador, Siqueira Campos, determinou a construção imediata de uma nova sede governamental que marcasse a independência e a modernidade do novo estado.

O projeto urbanístico da capital foi assinado pelos arquitetos Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Waldir Macieira. A cidade foi projetada em uma planície cercada pela imponente Serra do Lajeado, que servia como uma muralha natural a leste.

Em 1º de janeiro de 1990, os poderes estaduais foram transferidos oficialmente para a nova cidade, que nos seus primeiros anos assemelhava-se a um gigantesco canteiro de terra e poeira vermelha. Operários, políticos e comerciantes desbravadores de todo o Brasil migraram em busca das oportunidades oferecidas por terras recém-loteadas, construindo a identidade híbrida e miscigenada de Palmas.

Urbanismo Cívico: A Praça dos Girassóis e as Praias Fluviais

Toda a geografia urbana de Palmas gravita ao redor da monumental Praça dos Girassóis. Com quase 570 mil metros quadrados, ela é a segunda maior praça pública do mundo (perdendo apenas para a Praça Merdeka, em Jacarta, na Indonésia) e a maior da América Latina. Dentro deste vasto complexo arquitetônico concentram-se as sedes dos três poderes estaduais.

O Palácio Araguaia, sede do executivo estadual, é a construção mais imponente, com arcos em estilo neoclássico e painéis no subsolo que contam a história das batalhas históricas da região.

Outro destaque da praça é o Memorial Coluna Prestes, um belíssimo prédio projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer para homenagear a marcha revolucionária militar liderada por Luís Carlos Prestes, que atravessou o Brasil na década de 1920 e cruzou o território tocantinense.

Como Palmas não fica no litoral e não possui shoppings suficientes para abrigar toda a população aos domingos, a vida de lazer se transfere para as margens do lago da usina. A Praia da Graciosa é a mais estruturada de todas. Com areia branca colocada artificialmente, bares flutuantes, pier de madeira iluminado e áreas delimitadas para banho (protegidas por telas por conta das piranhas nativas dos rios da região), é o ponto mais badalado para assistir ao majestoso pôr do sol avermelhado escondendo-se atrás da ponte de 8 quilômetros que liga Palmas à margem oposta.

Cultura: Tradições Compartilhadas e as Tribos Xerentes

Como a cidade é muito jovem, a cultura de Palmas é essencialmente uma fusão vibrante das tradições trazidas por migrantes goianos, nordestinos (principalmente do Maranhão), mineiros e paraenses que a colonizaram. No entanto, o estado do Tocantins possui raízes indígenas antiquíssimas que influenciam fortemente o artesanato comercializado na capital.

O uso intenso e engenhoso do Capim Dourado — uma haste vegetal flexível que reluz literalmente como ouro, encontrada na região do Jalapão e colhida exclusivamente por comunidades quilombolas de Mumbuca — domina as vitrines. As artesãs trançam o capim com fios de seda retirados da folha do buriti, produzindo biojoias, mandalas, bolsas e colares de beleza rústica que hoje são exportados para passarelas do mundo todo.

As festividades religiosas trazidas dos municípios históricos do interior do estado (como Natividade) encontram eco em Palmas. A Folia do Divino Espírito Santo e as danças com influências afro-brasileiras, como a Sússia, são mantidas por associações de moradores das periferias.

Gastronomia: O Pesado Chambari e o Peixe na Telha

Quem visita Palmas e frequenta as feiras livres aos sábados ou domingos de manhã (como a Feira da 304 Sul) se assusta com o prato mais venerado e consumido pela população local para o café da manhã: o Chambari. O prato, com evidentes raízes na cultura pecuarista goiana e nordestina, é feito com o corte bovino conhecido como ossobuco (osso da perna do boi, rico em tutano).

A carne, dura e cheia de colágeno, é cozida em panela de pressão com tomates, cebola, pimenta de bode e temperos fortes até que o tutano desmanche e a carne solte do osso. Ele é servido logo cedo, às seis da manhã, acompanhado de farinha de mandioca grossa e arroz.

Para as refeições diurnas e almoços de negócios à beira do lago, os pescados regionais brilham absolutos. O majestoso Peixe na Telha (frequentemente feito com Surubim, Tambaqui ou Tucunaré, riquíssimos nos rios tocantinenses) é assado diretamente em uma telha de barro colonial para conservar o calor. Já na confeitaria, a influência da cidade histórica de Natividade é sentida no Amor-Perfeito, um biscoitinho leve, aerado e quebradiço feito de polvilho doce e leite de coco, derretendo na boca e servindo de acompanhamento obrigatório para o final de tarde nas imensas sacadas residenciais da capital.

Conclusão

Palmas é o Brasil em construção constante. É a prova física do planejamento expansionista do país nas últimas décadas. Uma capital que peca em mobilidade para pedestres pelas suas distâncias continentais entre os bairros, mas que acerta no espaço generoso de áreas verdes e parques estaduais no entorno. Funciona como um oásis tecnológico e administrativo cravado na transição de dois biomas vitais do país, aguardando pacientemente os aventureiros que desembarcam rumo aos fervedouros do deserto tocantinense.